7 de setembro de 2009

literatura por táctil


Grassa por este país entregue ao semi-analfabetismo um laisser faire editorial sem graça nenhuma.
Um dia destes tive em mãos uma edição do Livro do Desassossego da almazul que me deixou muito desassossegada.
Estou hoje redundante, pleonásmica e tautológica como aquela outra que faz orais a surdos e prescreve dietas na revista “Cais” com a agravante de usar o plural maggi e estático para nos levar a clímax como o do “nós, quando estivemos grávidas...”. A sério, esta pessoa existe e sou obrigada a olhá-la nos olhos sem gaguejar.
Enfim, God Give me Strength!, como diriam o Burt e o Elvis.

Mas voltando à editora alma azul (só agora reparo que se escreve alma azul, nem houve o golpezito de asa para fazer a crase gráfica já que se optou por duvidosa cacofonia... fonética - já agora para brindar à minha colunista preferida da revista dos sem abrigo).

Tendo a obra de Fernando Pessoa caído do seu baú celeste no domínio público, desde 2005 que é fartar vilanage. E assim me vem parar às mãos a edição azul do texto de Bernardo Soares. Tem 100 modestas paginazinhas com uma mancha gráfica reduzida e corpo de letra nédio, ou seja deve conter 1/5 do texto total, apresenta-se dividido em quatro partes que, verifico na badana, se transformam em outros tantos volumes da colecção com os mesmos títulos: Autobiografia - Diário; O Sonho - o Tédio; Reflexões sobre a Arte e o último e primoroso Deus é bom, mas o Diabo também não é mau.
Nada em local algum nos diz seja o que for sobre qualquer que sejam os critérios de edição e de selecção do texto: não percebemos por que é que há partes deste livro com o mesmo título de outros volumes da colecção, a partir de que edição/versão foram recolhidos os textos (terão aparecido lá em casa?) por que razão o Livro do Desassossego encolheu tanto (terá ido à máquina de lavar no programa errado?), enfim, é uma inquietação editorial, um desassossego, um vale-tudo-desde-que-se-chame-Pessoa.
Bem sei que a editora tem sido uma espécie de Madre Teresa de Calcutá de poetas ignotos deste eixo de terra de ninguém de entre Coimbra e Castelo Branco. Mas isso não lhe dá o direito a fazer o que lhe der na real gana e de vender produto da linha branca do Lidl com embalagem de loja gourmet.
Nem pude avaliar da fixação do texto porque haveria que andar a catar os nacos escolhidos e compará-los com o texto completo, ou tido como tal. Pessoa é um poeta fragmentário, mas não exageremos, caramba!
Mas, perguntarão (nunca perguntam nada, mas ainda assim tenho esperança) por que é que me encarniço com esta almazul para quem editar o que chamuscou muita pestana é canja, ou melhor, é mama. mamazul.
Não é nada de pessoal (como agora se diz, mesmo quando é uma sanha pessoalíssima a escorrer bílis). Quer dizer é pessoal só porque é o Pessoa. Mas é geral porque isto é tudo uma merda (estou na minha hora Vasco Pulido Valente).
Infelizmente agora não posso continuar, depois conto. O dever chama-me.
Verifico, entretanto, que a mesma colecção (literatura portátil) nos oferece Alberto Caeiro (numa versão a solo e ainda num mix com uma série de malta entre os quais Camões, Ritsos e outros que costumam tocar juntos). E, como ainda há pouco li num blog sério, creditado e quase benzido “Caeiro é um poeta que se lê muito bem”. Com esta recomendação e algum caldo de galinha (agora sim, mas também pode ser mama para quem preferir) vos deixo com amizade e com votos de uma rentrée suave e com menos contrariedades do que as de Cesário que ficava verde em certos dias difíceis como este.

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