30 de novembro de 2009
27 de novembro de 2009
imoralidade da História

O bolo-rei
O bolo-rei tomava-se muito a sério. Não havia discussão: ele era o rei dos bolos.
Como tal, quando lhe caiu uma passa da coroa, ordenou ao bolo-inglês:
— Traz-me essa passa de volta.
O bolo-inglês fez-se desentendido e respondeu:
— Sorry! I don’t understand...
O que queria dizer, na língua dele, que pedia desculpa, mas não tinha entendido.
Então, o bolo-rei virou-se para um bolo de natas e deu a mesma ordem.
Queria, outra vez, a passa a ornamentar-lhe a coroa. O bolo de natas tinha uma fala atrapalhada, por causa do excesso de natas.
— Flá, plefe, pflu, pfló..
Não se percebia nada.
O bolo-rei, muito irritado, ordenou o mesmo ao bolo de amêndoa, que lhe respondeu:
— Também a mim me caiu uma amêndoa torrada e não me queixo.
O bolo-rei, cada vez mais exasperado, deu a mesma ordem a um pudim de gelatina, mas o pudim de gelatina era muito frágil, muito nervoso e só tremeu, tremeu, incapaz de dizer ou fazer o que quer que fosse.
— São uns rebeldes estes meus súbditos — concluiu, numa grande exaltação, o bolo-rei. — Condeno-os a que sejam todos cortados às fatias.
E assim aconteceu. Mas nem o bolo-rei escapou.
António Torrado
— Traz-me essa passa de volta.
O bolo-inglês fez-se desentendido e respondeu:
— Sorry! I don’t understand...
O que queria dizer, na língua dele, que pedia desculpa, mas não tinha entendido.
Então, o bolo-rei virou-se para um bolo de natas e deu a mesma ordem.
Queria, outra vez, a passa a ornamentar-lhe a coroa. O bolo de natas tinha uma fala atrapalhada, por causa do excesso de natas.
— Flá, plefe, pflu, pfló..
Não se percebia nada.
O bolo-rei, muito irritado, ordenou o mesmo ao bolo de amêndoa, que lhe respondeu:
— Também a mim me caiu uma amêndoa torrada e não me queixo.
O bolo-rei, cada vez mais exasperado, deu a mesma ordem a um pudim de gelatina, mas o pudim de gelatina era muito frágil, muito nervoso e só tremeu, tremeu, incapaz de dizer ou fazer o que quer que fosse.
— São uns rebeldes estes meus súbditos — concluiu, numa grande exaltação, o bolo-rei. — Condeno-os a que sejam todos cortados às fatias.
E assim aconteceu. Mas nem o bolo-rei escapou.
António Torrado
26 de novembro de 2009
24 de novembro de 2009
arrumando os lençóis de seda
Fraseado de Galehout no dia seguinte ao serão de cavalaria com Lancelot.
23 de novembro de 2009
post scriptum

jum nakao

alexandre herchcovitch
Prá próxima sessão o tema será a Crónica do Imperador Clarimundo.
É um velho e inabalável tema no hit parade da família.
Só para aguçar o apetite, imaginem que é um livro portugês do início do século XVI que finge ser traduzido do húngaro. Nada mais, nada menos do que do húngaro, meus amigos, que é uma das línguas mais complicadas do mundo. Nem sequer é indo-europeia, é uma língua urálica. Ou seja, o português está mais perto do persa antigo do que do húngaro moderno. Só para dar um exemplo, o húngaro não tem género gramatical, é uma espécie de língua transgender o que dá logo azo a grande confusão, como calculam. Por que raio, alguém, em Portugal, foi fingir que traduzia um livro de uma língua que ninguém falava no seu país, num tempo em que não havia dicionários nem gramáticas é logo um manancial de possibilidades narrativas. Embora, pensando melhor, a escolha não seja descabida, porque, como ninguém sabia húngaro, também ninguém ia reclamar da suposta tradução. Como a vida era simples nesses tempos de baixa espionagem literária!...
Those were the days...
Só para aguçar o apetite, imaginem que é um livro portugês do início do século XVI que finge ser traduzido do húngaro. Nada mais, nada menos do que do húngaro, meus amigos, que é uma das línguas mais complicadas do mundo. Nem sequer é indo-europeia, é uma língua urálica. Ou seja, o português está mais perto do persa antigo do que do húngaro moderno. Só para dar um exemplo, o húngaro não tem género gramatical, é uma espécie de língua transgender o que dá logo azo a grande confusão, como calculam. Por que raio, alguém, em Portugal, foi fingir que traduzia um livro de uma língua que ninguém falava no seu país, num tempo em que não havia dicionários nem gramáticas é logo um manancial de possibilidades narrativas. Embora, pensando melhor, a escolha não seja descabida, porque, como ninguém sabia húngaro, também ninguém ia reclamar da suposta tradução. Como a vida era simples nesses tempos de baixa espionagem literária!...
Those were the days...
22 de novembro de 2009
A febre de sábado à noite


A minha colega e amiga está inquieta no sábado à noite com questões de trabalho que a não deixam sequer apreciar o belo tinto que o esposo solícito lhe foi comprar.
— É que não consigo deixar de pensar nestas coisas todas: o segundo ciclo, conseguiremos fazê-lo ou vamos encalhar e enterrarmo-nos ainda mais?, as eleições para os novos cargos com estatutos que não consigo compreender por mais que leia aquela merda, se teremos de nos lançar nessa batalha ou ainda vamos para a rua por perdermos mais horas, o que é que eu respondo ao dirigente da associação de surdos que já quase nos quer marcar encontros com o Sócrates, não consigo tirar isto tudo da minha cabeça que está ferver. Até me sinto febril. Já não sei se é stress se é gripe A, caraças!...
— Mas olha lá, tu não tens a tese de doutoramento a que tens de te agarrar no fim de semana?
— Ah!, mas hoje, nem pensar!... Não consigo concentrar-me nisso. Nem esse mundo, que me costuma ajudar tanto, hoje me vale...
— Anda lá, (digo eu já toda lampeira para me ir enfiar em frente à TV a fazer meia hora de zapping frenético), anda lá, vai lá ter com o Galaaz ou lá como se chama o gajo.
—Ai esse não, que não prestava para nada. Era pouco vivaço. Uma personagem de papel. Esse não.
— Então, o ... o coiso, o... olha, outro qualquer! Quem é que há pra lá na Idade Média que tenha interesse?
— O Lancelot, claro.
— Não, agora digo eu que não! Esse não, que já está muito visto. É sempre o Lancelot práqui, o Lancelot pralém. Está em todas, esse gajo! Outro! Um novo!
— Só se for o Amadis...
—O AMADIS?!! Porra, esse está podre de aparecer! Até eu, que não percebo nada de arturianologia, conheço a história do Amadis!.. Outro! Um novo! Não há gajos novos na Idade Média?! Não há nada de novo?!
— Não, Rosa. Na Idade Média não há nada de novo. Sabes que esse tempo já acabou...
— Essa é muito boa! A Idade Média já acabou! E logo vinda de uma pessoa que passa metade do seu tempo lá metida! Se algum filólogo te ouve ainda te excumunga...
— E com razão. Há sempre coisas novas a aparecer da Idade Média, é verdade... Mas olha, vou-te dizer: o meu preferido é o Galehout e, já agora a propósito do teu texto de há tempos sobre o Dante, que o Dante escrevia Galeotto. E também gosto muito do Galaor que era irmão do Amadis.
—Essa porra é cheia de guês! Parecem aqueles gajos que trocam os erres por guês para serem chiques. Como é qué? Galaaz, Galehout, Galaor! Caramba, tu não te baralhas com nomes tão parecidos? Parece que vão todos a galope! Bom, e é que iam mesmo.
— Não, não me baralho nada. Eu tenho muitas, mas mesmo muitas páginas para poder fixar estes nomes e mais outros tantos, muitos mais.
— Afinal com quantas páginas andas às voltas?
— Às voltas como?
— Às voltas, pá! De quantas páginas é que isso consta, o texto, o raio do corpus?
— Depende.
— Como depende? Transmuta-se como o do JotaCê?! Então as páginas não estão numeradas como agora têm a mania de fazer? Agora há esse tique de nunca numerarem as páginas como se isso fosse muito difícil de fazer no computador. Coisa mais irritante!... Depois imprime-se e se não se agrafa logo e alguém as mistura ou há uma rabanada de vento, como parece que acontecia frequentemente com o Joyce, temos que andar à procura da sequência. Ou então quem ler que se desunhe como fez o Joyce - tenho a certezinha que foi assim que ele fez só pra chatear. Mas como é isso de não saberes quantas páginas tem o texto sobre o qual andas a trabalhar há anos?! Como é que essa coisa do “depende”? Tem dias?!
— Não, depende do conjunto de fólios que considerares. Depende do ciclo. Se considerares todo o ciclo do Lancelot são, deixa cá ver, são 8 volumes, mais 1 da Demanda, 1 da Mort Artur, depois o Merlin e a Suite são 3, a Hestoire são 2... em quanto é que isto já vai?, já me perdi...
— Espera aí que eu tenho aqui a calculadora. Diz lá.
— Portanto, 8, mais 1, mais 1, mais 3, mais 2, quanto é que isso dá?
— 15.
— 15, pois. Depois mais 8 do Tristan, dá 23. Isto são só os volumes em prosa. Eu nunca fiz estas contas para não me assustar. Ainda faltam os volumes de narrativa em verso que são, deixa cá ver: Érec et Énide 1, Yvain 1, mais 1 da Charrete 3 e com o Perceval dá 4. São mais 4.
— Eh, pá, isso dá 23 volumes em prosa e 4 em poesia. É muita coisa!
— Não é poesia. É uma narrativa em verso. E isto são só as versões continentais, ou melhor só as francesas. Depois, ainda há os ingleses e os alemães, se bem que o ciclo inglês é mais tardio e...
— Ok, ok, pára aí! É muita coisa. Mas isso, traduzido em páginas, quanto é que dá?
—Também não sei dizer. É que isto está tudo em fólios. Normalmente, fazem-se as contas assim: um fólio dá sensivelmente 2 páginas. Mas espera, eu não estou a trabalhar sobre isto tudo! Só sei fazer as contas aos fólios com os quais eu trabalho. Eu só trabalho com o Lancelot, embora já tenha lido isto tudo. Quer dizer, o Amadis ainda não acabei. Deixa cá ver: 700 mais 800, dá 1500 fólios, vezes 2, 3000. São cerca de 3000 páginas. Eu trabalho com cerca de 3000 páginas. É isso. Jesus!, é melhor nem fazer estas contas que metem medo! Por isso, já vês que tenho práqui muita página onde encontrar muito nome.
— Cáspite! Então isso tem mais gente do que a Guerra e Paz!
— Mas muito mais! Embora eu, por acaso, nunca tenha confundido os nomes. Por acaso não, é mais porque os associo sempre a características que os diferenciam bem. Por exemplo, o Galaaz é um tipo muito abúlico, um choninhas mesmo, um pateta sem interesse nenhum, é pouco humano, é plano, só cumpre profecias, nem lá vou nem lá fico. O Galaor não, é um garanhão, um hispânico, é um gajo imparável: salva uma donzela e pumba!, salta-lhe para cima. Sempre!, não falha uma. Mas atenção, o Galaor não tem nada a ver com este ciclo, o Galaor é do Amadis e...
— Tá bem, isso não interessa nada. E elas? As moças a quem ele salta prá cueca? Prá cueca não, prá ceroula ou lá o que é que elas usavam...
— Elas não lhe dizem que não, porque o gajo é bonzão e depois não fica ali a dar-lhes seca, parte logo para outra e elas são salvas e ficam com uma boa memória.
—Pois, elas são salvas de uma encrenca qualquer daquelas típicas dessa época, como dragões, torreões, ou de uma de todas as épocas como sezões ou falta de tesões e ainda têm o extra de uma noite bem passada. Não está mal. Desde que não fiquem grávidas e a chorar de amores...
— Até agora não, até onde li ainda nenhuma engravidou.
—Isso cheira-me a esturro: sexo inconsequente e sem culpabilidades?... Já terão estudado a coisa por esse prisma?
— De certeza. Até há estudos queer sobre o Galehout com base na noite em que ele partilha a cama com o Lancelot. Foi só uma noite, mas não foi uma cama qualquer, era de seda e diz o texto que “muito rica” e Galehout só pensava em “fazer companhia e cavalaria” ao outro ainda que este não estivesse muito pelos ajustes. Estás a ver. Aquilo dá para muitas leituras...
— Ora é por aí que andava de certeza escondido o tal de Graal: no meio dos lençóis dos amigos. Isso é que é falar. Estou a ver é que esses arturianos queriam era uma noite prá loucura e adeus até nunca mais. Então e à propos: e se fosses beber um copo com o teu cavaleiro e dizer-lhe que tens o cinto de castidade a precisar de WD-40?
— Que é isso?
— É um clássico do bricolage, mulher! Um anti-corrosivo que se anuncia como tendo grande poder de penetração e de lubrificação. Comprei há bocado um novo spray no Continente por causa das roldanas da corda da roupa que chiam mais que a armadura enferrujada dos teus Gaaélicos todos em canto gregoriano à desgarrada.
— Não conheço. De bricolage pesco pouco. Eu é mais bolos, sabes... Vou, vou, que esta conversa está a perder a dignidade! Do meu Galaaz já conseguiste chegar aos lubrificantes, caramba!
— Pois é, já sabes como é: ando nesta fase de reduzir tudo ao bricolage. O que é que tu queres?, é a reductio ad absurdum que se arranja. Fica-te com esta, prá conversa acabar em latim que traz sempre um surplus de dignidade.
— É que não consigo deixar de pensar nestas coisas todas: o segundo ciclo, conseguiremos fazê-lo ou vamos encalhar e enterrarmo-nos ainda mais?, as eleições para os novos cargos com estatutos que não consigo compreender por mais que leia aquela merda, se teremos de nos lançar nessa batalha ou ainda vamos para a rua por perdermos mais horas, o que é que eu respondo ao dirigente da associação de surdos que já quase nos quer marcar encontros com o Sócrates, não consigo tirar isto tudo da minha cabeça que está ferver. Até me sinto febril. Já não sei se é stress se é gripe A, caraças!...
— Mas olha lá, tu não tens a tese de doutoramento a que tens de te agarrar no fim de semana?
— Ah!, mas hoje, nem pensar!... Não consigo concentrar-me nisso. Nem esse mundo, que me costuma ajudar tanto, hoje me vale...
— Anda lá, (digo eu já toda lampeira para me ir enfiar em frente à TV a fazer meia hora de zapping frenético), anda lá, vai lá ter com o Galaaz ou lá como se chama o gajo.
—Ai esse não, que não prestava para nada. Era pouco vivaço. Uma personagem de papel. Esse não.
— Então, o ... o coiso, o... olha, outro qualquer! Quem é que há pra lá na Idade Média que tenha interesse?
— O Lancelot, claro.
— Não, agora digo eu que não! Esse não, que já está muito visto. É sempre o Lancelot práqui, o Lancelot pralém. Está em todas, esse gajo! Outro! Um novo!
— Só se for o Amadis...
—O AMADIS?!! Porra, esse está podre de aparecer! Até eu, que não percebo nada de arturianologia, conheço a história do Amadis!.. Outro! Um novo! Não há gajos novos na Idade Média?! Não há nada de novo?!
— Não, Rosa. Na Idade Média não há nada de novo. Sabes que esse tempo já acabou...
— Essa é muito boa! A Idade Média já acabou! E logo vinda de uma pessoa que passa metade do seu tempo lá metida! Se algum filólogo te ouve ainda te excumunga...
— E com razão. Há sempre coisas novas a aparecer da Idade Média, é verdade... Mas olha, vou-te dizer: o meu preferido é o Galehout e, já agora a propósito do teu texto de há tempos sobre o Dante, que o Dante escrevia Galeotto. E também gosto muito do Galaor que era irmão do Amadis.
—Essa porra é cheia de guês! Parecem aqueles gajos que trocam os erres por guês para serem chiques. Como é qué? Galaaz, Galehout, Galaor! Caramba, tu não te baralhas com nomes tão parecidos? Parece que vão todos a galope! Bom, e é que iam mesmo.
— Não, não me baralho nada. Eu tenho muitas, mas mesmo muitas páginas para poder fixar estes nomes e mais outros tantos, muitos mais.
— Afinal com quantas páginas andas às voltas?
— Às voltas como?
— Às voltas, pá! De quantas páginas é que isso consta, o texto, o raio do corpus?
— Depende.
— Como depende? Transmuta-se como o do JotaCê?! Então as páginas não estão numeradas como agora têm a mania de fazer? Agora há esse tique de nunca numerarem as páginas como se isso fosse muito difícil de fazer no computador. Coisa mais irritante!... Depois imprime-se e se não se agrafa logo e alguém as mistura ou há uma rabanada de vento, como parece que acontecia frequentemente com o Joyce, temos que andar à procura da sequência. Ou então quem ler que se desunhe como fez o Joyce - tenho a certezinha que foi assim que ele fez só pra chatear. Mas como é isso de não saberes quantas páginas tem o texto sobre o qual andas a trabalhar há anos?! Como é que essa coisa do “depende”? Tem dias?!
— Não, depende do conjunto de fólios que considerares. Depende do ciclo. Se considerares todo o ciclo do Lancelot são, deixa cá ver, são 8 volumes, mais 1 da Demanda, 1 da Mort Artur, depois o Merlin e a Suite são 3, a Hestoire são 2... em quanto é que isto já vai?, já me perdi...
— Espera aí que eu tenho aqui a calculadora. Diz lá.
— Portanto, 8, mais 1, mais 1, mais 3, mais 2, quanto é que isso dá?
— 15.
— 15, pois. Depois mais 8 do Tristan, dá 23. Isto são só os volumes em prosa. Eu nunca fiz estas contas para não me assustar. Ainda faltam os volumes de narrativa em verso que são, deixa cá ver: Érec et Énide 1, Yvain 1, mais 1 da Charrete 3 e com o Perceval dá 4. São mais 4.
— Eh, pá, isso dá 23 volumes em prosa e 4 em poesia. É muita coisa!
— Não é poesia. É uma narrativa em verso. E isto são só as versões continentais, ou melhor só as francesas. Depois, ainda há os ingleses e os alemães, se bem que o ciclo inglês é mais tardio e...
— Ok, ok, pára aí! É muita coisa. Mas isso, traduzido em páginas, quanto é que dá?
—Também não sei dizer. É que isto está tudo em fólios. Normalmente, fazem-se as contas assim: um fólio dá sensivelmente 2 páginas. Mas espera, eu não estou a trabalhar sobre isto tudo! Só sei fazer as contas aos fólios com os quais eu trabalho. Eu só trabalho com o Lancelot, embora já tenha lido isto tudo. Quer dizer, o Amadis ainda não acabei. Deixa cá ver: 700 mais 800, dá 1500 fólios, vezes 2, 3000. São cerca de 3000 páginas. Eu trabalho com cerca de 3000 páginas. É isso. Jesus!, é melhor nem fazer estas contas que metem medo! Por isso, já vês que tenho práqui muita página onde encontrar muito nome.
— Cáspite! Então isso tem mais gente do que a Guerra e Paz!
— Mas muito mais! Embora eu, por acaso, nunca tenha confundido os nomes. Por acaso não, é mais porque os associo sempre a características que os diferenciam bem. Por exemplo, o Galaaz é um tipo muito abúlico, um choninhas mesmo, um pateta sem interesse nenhum, é pouco humano, é plano, só cumpre profecias, nem lá vou nem lá fico. O Galaor não, é um garanhão, um hispânico, é um gajo imparável: salva uma donzela e pumba!, salta-lhe para cima. Sempre!, não falha uma. Mas atenção, o Galaor não tem nada a ver com este ciclo, o Galaor é do Amadis e...
— Tá bem, isso não interessa nada. E elas? As moças a quem ele salta prá cueca? Prá cueca não, prá ceroula ou lá o que é que elas usavam...
— Elas não lhe dizem que não, porque o gajo é bonzão e depois não fica ali a dar-lhes seca, parte logo para outra e elas são salvas e ficam com uma boa memória.
—Pois, elas são salvas de uma encrenca qualquer daquelas típicas dessa época, como dragões, torreões, ou de uma de todas as épocas como sezões ou falta de tesões e ainda têm o extra de uma noite bem passada. Não está mal. Desde que não fiquem grávidas e a chorar de amores...
— Até agora não, até onde li ainda nenhuma engravidou.
—Isso cheira-me a esturro: sexo inconsequente e sem culpabilidades?... Já terão estudado a coisa por esse prisma?
— De certeza. Até há estudos queer sobre o Galehout com base na noite em que ele partilha a cama com o Lancelot. Foi só uma noite, mas não foi uma cama qualquer, era de seda e diz o texto que “muito rica” e Galehout só pensava em “fazer companhia e cavalaria” ao outro ainda que este não estivesse muito pelos ajustes. Estás a ver. Aquilo dá para muitas leituras...
— Ora é por aí que andava de certeza escondido o tal de Graal: no meio dos lençóis dos amigos. Isso é que é falar. Estou a ver é que esses arturianos queriam era uma noite prá loucura e adeus até nunca mais. Então e à propos: e se fosses beber um copo com o teu cavaleiro e dizer-lhe que tens o cinto de castidade a precisar de WD-40?
— Que é isso?
— É um clássico do bricolage, mulher! Um anti-corrosivo que se anuncia como tendo grande poder de penetração e de lubrificação. Comprei há bocado um novo spray no Continente por causa das roldanas da corda da roupa que chiam mais que a armadura enferrujada dos teus Gaaélicos todos em canto gregoriano à desgarrada.
— Não conheço. De bricolage pesco pouco. Eu é mais bolos, sabes... Vou, vou, que esta conversa está a perder a dignidade! Do meu Galaaz já conseguiste chegar aos lubrificantes, caramba!
— Pois é, já sabes como é: ando nesta fase de reduzir tudo ao bricolage. O que é que tu queres?, é a reductio ad absurdum que se arranja. Fica-te com esta, prá conversa acabar em latim que traz sempre um surplus de dignidade.
19 de novembro de 2009
à americana (e sem bolacha)

—Ó Quim! São três da manhã! O que é que tu estás a fazer agarrado ao telemóvel, em pijama no jardim, às três da manhã?! Ainda por cima a pisar o canteiro de gipsófilas que semeei na semana passada!! São três da manhã! Deixa-te de disparates e volta para a cama, anda!
— Não posso querida, estou a salvar a humanidade!
— Não posso querida, estou a salvar a humanidade!
15 de novembro de 2009
11 de novembro de 2009
9 de novembro de 2009
CATECISMO DE HEIDELBERG (ou um post mais a gosto dos frequentadores de posts)

eu sou o cão sujo da tua cobardia.
eu detesto cães.
o mundo esteve sempre ali para ser descrito e sorvido como se não houvesse mais mundo.
partíramos do princípio errado.
nada nos poderia demover da esperança de um canto agudo do presente, mas havia um fim de que sempre suspeitáramos sem consentimento mútuo.
havia a morte.
humanos e pobres de nós mesmos não aceitávamos tal facto.
entalávamos a morte entre parênteses como uma ficção.
indelével e morno, esperava-nos um ponto levemente inebriante, escondido numa dobra do espaço.
cintilava a néon “meu pecado e miséria”.
o mundo não era uma sequência lógica.
muito menos um staccato romântico.
2 de novembro de 2009
hiper-oxímoro no hiper-mercado

na prateleira do hipermercado vejo anunciado um insecticida biológico.
este destrona a máxima do garfield válida até agora.
1 de novembro de 2009
tutti santi's day

Túmulo de Dante na Basilica di Santa Croce, Firenze.
Este túmulo está vazio. Dante morreu em Ravena, no exílio. Os florentinos tentaram levar o corpo do poeta para a sua cidade natal, onde lhe construíram esta tumba luxuosa, porém os habitantes de Ravena nunca autorizaram a transladação.

"Sotto questo tumulo
Le ossa di Dante
Ebbero sicuro riposo
Del 23 Marzo 1944
Al 19 Dicembre 1945"
Túmulo temporário de Dante, em Ravena, usado para evitar os danos dos bombardeamentos durante a Segunda Guerra Mundial. Está perto do verdadeiro, na Basilica San Francesco.

Interior

Tomba di Dante presso la Basilica San Francesco, Ravena.
Junho de 1997. Este é que é o verdadeiro túmulo de Dante, uff!
Si non è vero, è bene trovato.
Junho de 1997. Este é que é o verdadeiro túmulo de Dante, uff!
Si non è vero, è bene trovato.
31 de outubro de 2009
Dante/Erza Pound: a mesma luta ou teoria da configuração
Sexta-feira à noite olho para um postal comprado em Florença em 1997. Repousa há anos numa das estantes do meu escritório: “Incontro di Dante con Beatrice” de Henry Holliday. Não há como uma sexta-feira à noite para ficar a pasmar para um pré-rafaelista.
1. Dante afirmava ter visto Beatriz pela primeira vez aos nove anos e nunca mais se ter esquecido dessa imagem. Deve ser a isto que se chama uma imagem pregnante. Prenhe mesmo antes do tempo da floração biológica da prenhez. A imagem pregnante é uma relação de ajuste, de reconhecimento, em que se vive suspenso numa espécie de espera. Dante esperou, não nove meses, mas nove anos para rever Beatriz. O número nove e seus múltiplos impregnam a Vita Nuova, povoando-a de segredos. O amor por Beatriz estava repassado de memória, morte e segredo.
A representação de Henry Holliday mistura um possível segundo encontro aos dezoito anos com o impacto da epifania que se teria dado miticamente aos nove, sobrepondo os dois momentos. Beatriz, de vestes claras, passa, olhando em frente, compenetrada em não saudar Dante que, desacordado pela aparição, tenta esconder o seu amor, cortejando falsamente a rapariga de vestes fulvas e formas bem menos angelicais do que as de Beatriz.
Dante leva a mão ao peito, sublinhando o embate da revelação. Esboça o gesto do animal ferido, mas a picada da dor é bem mais profunda do que o rasgão físico da lança invisível. Naquele instante, deixa de ser homem e passa a oráculo de si mesmo. E vê, fora de si, o ideal do eu. Pensará talvez: eu sou mais um, eu também estou ali, noutro, não estou mais contido em mim, prolongo-me para um outro em que me reconheço, mas que não domino.
Dominus era o senhor da domus, da casa. O não-domínio é a expulsão da casa. Da casa do ser, doravante semi-ocupada por outro que também sou eu.
Dante é fulminado pelo prazer e desprazer que esta revelação lhe provoca. É um derrame do ser que muda para sempre a sua percepção da vida e do eu. É a descoberta da introspecção. Dante inventou o amor e a introspecção. De certa forma, inventou a psicanálise — uma psicanálise renascentista. De resto, analisar-se/ser analisado é, de alguma forma, renascer.
Descobriu que o amor é o imaginário, uma película translúcida que transmite luz, que se deixa atravessar por ela, mas, no mesmo acto, oculta, confunde e ofusca.
Descobriu que o nosso olhar é uma cortina sobre o mundo. A revelação é de tal ordem que dissolve o eu anterior e deixa-o nu, descarnado. Pronto a ser preenchido pela imagem de Beatriz.
2. Dante morreu com 56 anos e Beatriz com 24. Há quem diga que apenas se encontraram aos nove anos e que Dante nunca teria chegado a falar com ela. Como é amar sem conhecer a voz? Sem acesso ao ruído do outro? A ter acontecido assim, o poeta teria vivido durante 47 anos fixado numa imagem fugidia que por ele passara no final da infância. Vivia do oxigénio desaparecido há muito. Vivia da ideia de oxigénio.
Há quem sustente que Beatriz nunca existiu. Mas também é possível que Dante a tenha conhecido fugazmente aos 18 anos. Seria Beatrice Portinari, filha do banqueiro Folco Portinari, mais tarde prosaicamente casada com outro banqueiro, esta amada ideal que atravessa o Arno pela ponte Santa Trinità, entrando muda e saindo calada de cena, aparentemente sem outro rumor do corpo que não seja o do esvoaçar do vestido florentino.
Noutra versão, criada pelo próprio Dante, Beatriz tê-lo-ia saudado e por esse acto, convertido para sempre a um amor auto-alimentado de ideal para uns, de delírio para outros.
A pintura de Henry Holliday parece o flash de uma passagem de modelos. O modo de caminhar, o segurar das vestes e expor os pregueados de tecidos em cores que não podiam existir no final do século XIII, estes segundos míticos para o amor ocidental poderiam ser o cartaz da nova colecção Primavera/Verão 1283. Nome da colecção: Dolce Stil Nuovo.
3. Onde é que nós já vimos isto?
Todos os dias, em qualquer transporte público e em qualquer série de televisão mais ou menos apatetada.
Hoje, graças a séculos de mal entendidos e de guerra dos sexos, graças aos efeitos de muita análise mesmo entre os que a rejeitam, podemos compreender mais facilmente estes dois apaixonados. Ele fica atordoado com a força que subitamente o invade e que não quer, não pode ou não sabe mostrar e disfarça mal, namoriscando as outras. Ela, naturalmente, não gosta, e não lhe dá o que hoje chamamos, na política e no amor, uma nova oportunidade.
Se esta história nos dá jeito na literatura, mitologia, psicanálise e na cotação na bolsa (há pelo menos dois banqueiros neste enredo idílico), na realidade, as coisas não foram bem assim.
Na “vida real”, Dante casou com Gemma Donati de quem teve quatro filhos e sobre quem nunca escreveu uma só palavra. A pobre Gemma teve de aguentar toda a vida a presença de um fantasma, mais poderoso do que o da Rebecca de du Maurier/Hitchcock.
Apesar da sua gigantesca capacidade de idealização, Dante não deixava o pragmatismo por mãos alheias. Teve uma carreira política ainda que toldada por grandes dissabores (o que o fez morrer no exílio, em Ravena – não um exílio dourado, mas um exílio bizantino, um exílio aos quadradinhos), participou na vida militar (foi amigo de Carlos Martel, esse herói da não islamização da europa) e era grande defensor dos sindicatos nascentes (as Guildas). De facto, tornou-se médico e farmacêutico, não para exercer estas nobres ainda que, à época, insipientes profissões, mas para se tornar sindicalista dos boticários e, através do sindicato, aceder à vida política. Onde é que nós já vimos isto? Como é que aquela península era, nessa data distante, tão moderna e hoje serve tão mal a democracia? Tudo isto são temas para não nos ajudarem a compreender a península itálica.
Para além disso, Dante desperta, de imediato, a nossa instintiva simpatia por se ter recusado pagar as multas pesadas que o governo florentino (muito a mando da intrigalhada papal que ele sempre combateu) lhe impôs por delito de opinião política. Proscrito e desiludido, chegou a declarar solenemente que pertencia a um partido com um único membro.
Tudo isto o torna bastante mais humano e vulnerável a nossos olhos e pode ajudar a compreender a sua visão dantesca do mundo que, não raramente, coincide com a nossa quando nos pomos a pensar com alguma intensidade no que nos rodeia, sem estarmos necessariamente nas margens do Arno.
4. No Natal de 2008, ao passearmos no bairro anarquista de Exárcheia, muito menos esventrado do que mostravam os telejornais e bem mais interessante do que a restante Atenas moderna, dizia-me o meu amigo Ignácio:
— Falam desta coisa da globalização como um fenómeno mais ou menos recente, mas...
— Recente dos descobrimentos para cá, queres tu dizer — interrompo eu, armada em esclarecida.
— Não, nina, é muito mais antigo! Olha, em termos culturais, acho que... acho mesmo que começou com o Dolce Stil Nuovo. É isso!, o Dolce Stil Nuovo já era a globalização cultural, não achas? Começaram todos a escrever e a pensar e a amar como o Dante e os amigos. E nunca mais parou. É claro que ele não descobriu a pólvora. Ele e os amigos. Já tínhamos tido antes os trovadores, os nosso trovadores, com ou sem provençais que só se apaixonavam na Primavera, como diz o vosso Dom Denis. Já havia amores místicos e tomismos e platonismos e essa coisada toda. Mas esses gajos do Dolce Stil Nuovo é que tiveram o golpe de génio de pegar nessas tendências todas, dar-lhes outras roupas e exportar para o resto da Europa. E pronto, lançaram um gosto, um modelo, com formas muito diferentes consoante as épocas, mas que nunca mais parou, já reparaste? É como a moda, é perceber o que anda no ar e dar-lhe uma forma. Aí é que começou a globalização. Foi com o Dolce Stil Nuovo, garanto-te eu.
Voltávamos pela praça Sintagma. Num canto em obras, em vez do habitual “Men at Work” ou equivalente indígena, lemos e rimos com a indicação “Metamorfosis”.
E continuámos a divagar a partir deste Dante mistificador, mas tão sagaz que dele a Erza Pound não deixou de se amar, escrever e ver o ser amado de modo a que não houvesse algum fio preso a essa tarde à beira do Arno com ou sem saudação de Beatriz.
Se aqui estivesse o meu amigo Tozé remataria com a palavra de ordem: “A luta continua: Beatriz toda nua!”
A representação de Henry Holliday mistura um possível segundo encontro aos dezoito anos com o impacto da epifania que se teria dado miticamente aos nove, sobrepondo os dois momentos. Beatriz, de vestes claras, passa, olhando em frente, compenetrada em não saudar Dante que, desacordado pela aparição, tenta esconder o seu amor, cortejando falsamente a rapariga de vestes fulvas e formas bem menos angelicais do que as de Beatriz.
Dante leva a mão ao peito, sublinhando o embate da revelação. Esboça o gesto do animal ferido, mas a picada da dor é bem mais profunda do que o rasgão físico da lança invisível. Naquele instante, deixa de ser homem e passa a oráculo de si mesmo. E vê, fora de si, o ideal do eu. Pensará talvez: eu sou mais um, eu também estou ali, noutro, não estou mais contido em mim, prolongo-me para um outro em que me reconheço, mas que não domino.
Dominus era o senhor da domus, da casa. O não-domínio é a expulsão da casa. Da casa do ser, doravante semi-ocupada por outro que também sou eu.
Dante é fulminado pelo prazer e desprazer que esta revelação lhe provoca. É um derrame do ser que muda para sempre a sua percepção da vida e do eu. É a descoberta da introspecção. Dante inventou o amor e a introspecção. De certa forma, inventou a psicanálise — uma psicanálise renascentista. De resto, analisar-se/ser analisado é, de alguma forma, renascer.
Descobriu que o amor é o imaginário, uma película translúcida que transmite luz, que se deixa atravessar por ela, mas, no mesmo acto, oculta, confunde e ofusca.
Descobriu que o nosso olhar é uma cortina sobre o mundo. A revelação é de tal ordem que dissolve o eu anterior e deixa-o nu, descarnado. Pronto a ser preenchido pela imagem de Beatriz.
2. Dante morreu com 56 anos e Beatriz com 24. Há quem diga que apenas se encontraram aos nove anos e que Dante nunca teria chegado a falar com ela. Como é amar sem conhecer a voz? Sem acesso ao ruído do outro? A ter acontecido assim, o poeta teria vivido durante 47 anos fixado numa imagem fugidia que por ele passara no final da infância. Vivia do oxigénio desaparecido há muito. Vivia da ideia de oxigénio.
Há quem sustente que Beatriz nunca existiu. Mas também é possível que Dante a tenha conhecido fugazmente aos 18 anos. Seria Beatrice Portinari, filha do banqueiro Folco Portinari, mais tarde prosaicamente casada com outro banqueiro, esta amada ideal que atravessa o Arno pela ponte Santa Trinità, entrando muda e saindo calada de cena, aparentemente sem outro rumor do corpo que não seja o do esvoaçar do vestido florentino.
Noutra versão, criada pelo próprio Dante, Beatriz tê-lo-ia saudado e por esse acto, convertido para sempre a um amor auto-alimentado de ideal para uns, de delírio para outros.
A pintura de Henry Holliday parece o flash de uma passagem de modelos. O modo de caminhar, o segurar das vestes e expor os pregueados de tecidos em cores que não podiam existir no final do século XIII, estes segundos míticos para o amor ocidental poderiam ser o cartaz da nova colecção Primavera/Verão 1283. Nome da colecção: Dolce Stil Nuovo.
3. Onde é que nós já vimos isto?
Todos os dias, em qualquer transporte público e em qualquer série de televisão mais ou menos apatetada.
Hoje, graças a séculos de mal entendidos e de guerra dos sexos, graças aos efeitos de muita análise mesmo entre os que a rejeitam, podemos compreender mais facilmente estes dois apaixonados. Ele fica atordoado com a força que subitamente o invade e que não quer, não pode ou não sabe mostrar e disfarça mal, namoriscando as outras. Ela, naturalmente, não gosta, e não lhe dá o que hoje chamamos, na política e no amor, uma nova oportunidade.
Se esta história nos dá jeito na literatura, mitologia, psicanálise e na cotação na bolsa (há pelo menos dois banqueiros neste enredo idílico), na realidade, as coisas não foram bem assim.
Na “vida real”, Dante casou com Gemma Donati de quem teve quatro filhos e sobre quem nunca escreveu uma só palavra. A pobre Gemma teve de aguentar toda a vida a presença de um fantasma, mais poderoso do que o da Rebecca de du Maurier/Hitchcock.
Apesar da sua gigantesca capacidade de idealização, Dante não deixava o pragmatismo por mãos alheias. Teve uma carreira política ainda que toldada por grandes dissabores (o que o fez morrer no exílio, em Ravena – não um exílio dourado, mas um exílio bizantino, um exílio aos quadradinhos), participou na vida militar (foi amigo de Carlos Martel, esse herói da não islamização da europa) e era grande defensor dos sindicatos nascentes (as Guildas). De facto, tornou-se médico e farmacêutico, não para exercer estas nobres ainda que, à época, insipientes profissões, mas para se tornar sindicalista dos boticários e, através do sindicato, aceder à vida política. Onde é que nós já vimos isto? Como é que aquela península era, nessa data distante, tão moderna e hoje serve tão mal a democracia? Tudo isto são temas para não nos ajudarem a compreender a península itálica.
Para além disso, Dante desperta, de imediato, a nossa instintiva simpatia por se ter recusado pagar as multas pesadas que o governo florentino (muito a mando da intrigalhada papal que ele sempre combateu) lhe impôs por delito de opinião política. Proscrito e desiludido, chegou a declarar solenemente que pertencia a um partido com um único membro.
Tudo isto o torna bastante mais humano e vulnerável a nossos olhos e pode ajudar a compreender a sua visão dantesca do mundo que, não raramente, coincide com a nossa quando nos pomos a pensar com alguma intensidade no que nos rodeia, sem estarmos necessariamente nas margens do Arno.
4. No Natal de 2008, ao passearmos no bairro anarquista de Exárcheia, muito menos esventrado do que mostravam os telejornais e bem mais interessante do que a restante Atenas moderna, dizia-me o meu amigo Ignácio:
— Falam desta coisa da globalização como um fenómeno mais ou menos recente, mas...
— Recente dos descobrimentos para cá, queres tu dizer — interrompo eu, armada em esclarecida.
— Não, nina, é muito mais antigo! Olha, em termos culturais, acho que... acho mesmo que começou com o Dolce Stil Nuovo. É isso!, o Dolce Stil Nuovo já era a globalização cultural, não achas? Começaram todos a escrever e a pensar e a amar como o Dante e os amigos. E nunca mais parou. É claro que ele não descobriu a pólvora. Ele e os amigos. Já tínhamos tido antes os trovadores, os nosso trovadores, com ou sem provençais que só se apaixonavam na Primavera, como diz o vosso Dom Denis. Já havia amores místicos e tomismos e platonismos e essa coisada toda. Mas esses gajos do Dolce Stil Nuovo é que tiveram o golpe de génio de pegar nessas tendências todas, dar-lhes outras roupas e exportar para o resto da Europa. E pronto, lançaram um gosto, um modelo, com formas muito diferentes consoante as épocas, mas que nunca mais parou, já reparaste? É como a moda, é perceber o que anda no ar e dar-lhe uma forma. Aí é que começou a globalização. Foi com o Dolce Stil Nuovo, garanto-te eu.
Voltávamos pela praça Sintagma. Num canto em obras, em vez do habitual “Men at Work” ou equivalente indígena, lemos e rimos com a indicação “Metamorfosis”.
E continuámos a divagar a partir deste Dante mistificador, mas tão sagaz que dele a Erza Pound não deixou de se amar, escrever e ver o ser amado de modo a que não houvesse algum fio preso a essa tarde à beira do Arno com ou sem saudação de Beatriz.
Se aqui estivesse o meu amigo Tozé remataria com a palavra de ordem: “A luta continua: Beatriz toda nua!”
25 de outubro de 2009
Bricolage dexistencial em noites de outono
— Olá! Então? Novidades por aí? Como é que vai essa montagem de cozinha?
— Nem me fales! Isso é um assunto muito longo e agora estou com pressa, que esta noite ainda aqui tenho muito que lhe dar.
— Mas então, o que é que se passa? O carpinteiro desaparecido já deu à costa ou ainda anda a monte?
— Já apareceu. O problema agora não é esse. A questão agora é que combinamos, mas ele está sempre a desmarcar, ora porque choveu, ora porque vai chover, ora porque não confia no último boletim meteorológico. O gajo tem imensos problemas com a meteorologia, tu sabes lá!...
— Mas... não estou a perceber!... O que é que a meteorologia tem a ver com a montagem de uma cozinha, se é tudo trabalho de interior?
— Aí é que está o complicado da história. Ai... ai... Vou então tentar fazer-te um resumo.
[Pausa]
— Uma pessoa pensa que pensa em tudo e nunca pensa em tudo.
— Mau!... Não me digas que vai ser uma história como a da exposição que fizeste para o tribunal e que deu tão mau resultado!...
— Qual delas?!
— Aquela em que tu começavas o texto por “Estava-se num Outono que se advinhava muito chuvoso...”
— Ah, sim, sim. Não era uma exposição, era a contestação ao processo que uma empresa me colocou por eu lhes exigir que me pagassem o que me deviam. E tive de ser eu a fazê-la, porque na véspera descubro que o advogado não tinha feito nada. Pois, essa do Outono... Que depois o juiz perguntava no relambório da matéria de facto: “Estava-se num Outono que se advinhava muito chuvoso?” e eu estava a ver que pra responder tinha de ir arranjar os gráficos pluviométricos desse ano... Ah, pois, essa história... Não. Não, desta vez é mesmo uma reflexão mais inquietante.
— Porra, que tu não consegues mudar um móvel sem angústias existenciais!
— Não é nada disso! Já vais perceber. A questão é com o isolamento térmico.
— Mas então não era só montar a cozinha?!
— Nãão! Já que vou a montar a cozinha cá em baixo e, antes disso, quero fazer o isolamento térmico lá em cima, porque aquilo no sótão é muito quente no verão e muito frio no inverno. E então pensei que devia aproveitar ter agora um mestre de obras para tratar disso. Pralém de que tem mesmo de se começar por aí. Mas o grande problema é que material usar no isolamento. Eu tinha pensado usar lã de rocha mais pladur, mas ele não concorda, quer pôr uma coisa que se chama roofmate, que ele acha que é melhor. E discutimos uma série de vezes por causa disso. Até que eu, de repente, páro para pensar: “Espera lá, por que é que eu estou práqui a insistir tanto na lã de rocha?” E então vou à net e verifico que a lã de rocha é cancerígena! E penso: afinal o homem tem razão! Já agora, deixa cá ver como é isto do roofmate. E descubro que o roofmate é inflamável, caraças!
— Ena, pá!... Ena pá 3000!!...
— Pois é, já estás a ver a coisa, não é? Estás a ver como é que eu fiquei, práli parado uns dias a pensar: “O que é que é pior? Morrer com um cancro ou morrer queimado?” Estás-me a ver, não é? É do caraças, uma pessoa apanhar-se a pensar assim!... Até que decidi: é pouco provável que alguém vá atirar um fósforo aceso para o tecto e que ainda por cima o fósforo se vá infiltrar entre as telhas e a placa. Se bem que, se a Maria Otília ainda aqui vivesse, não era de descartar tal hipótese. Pois se ela furou a parede de um túnel com o automóvel e andou anos a pagar o túnel à Confederação Helvética!... Bom, mas agora, enquanto ela andar entretida não sei por onde com os Palops, não vem práqui lançar chamas pró ar. De maneira, que lá dei razão ao homem e optei pelo roofmate.
— Então já está! Pelo menos essa já decidiste.
— Pois, mas a aplicação do roofmate implica que se levantem telhas. Nem quero pensar no que vai ser com os vizinhos quando eu disser que vou mexer no telhado, ai Jesus!... Bom, mas agora já percebeste porque é que a meteorologia tem implicações na prossecução da coisa, na montagem da cozinha.
— Mas, ó Pedrinho, isso assim é uma chatice! Tu já viste que já começou o Outono, que, por sinal, se advinha muito chuvoso? Então, agora é que tu vais mexer no telhado?!...
— Pois, mas o é que tu queres?... Isto estava programado desde Julho, mas têm-se metido umas coisas nas outras e chegamos a fim de Outubro. Estou feito, estou feito, estou aqui ensarilhado num nó que me enreda cada vez mais!...
— Então, mas por que é que tu não tratas de montar a cozinha e deixas o isolamento prá Primavera? Tens a casa cheia de materiais e uma cozinha sem funcionar: isso assim não dá!
— Porque o carpinteiro não pode vir pôr o parquet, antes do tecto arranjado, porque depois caem coisas, materiais, ferramentas e coisas assim e estragam o soalho, estragam-lhe o trabalho.
— Mas vinha agora montar só mesmo o essencial para a cozinha funcionar e depois faziam o resto, começando do tecto para o chão. Isso não é possível?
— Ser possível é, mas o carpinteiro diz que não está para cá vir duas vezes: uma para montar a cozinha e outra para pôr o parquet. Por causa da maleta.
— Da maleta?!! Que maleta?!!
— Da maleta dele que é muito pesada e ele não está para subir quatro andares, alombando com ela por duas vezes. Diz que tem de trazer as coisas dele, montar o estaminé e fazer os dois trabalhos de seguida. O que é que tu queres?, é assim!... Tu não imaginas o que eu tenho passado com estes gajos! Eu até tenho medo de um dia me atirar a algum deles e lhe torcer o gasganete!... Oh, porra, agora já estou com uma pontada na vesícula só de falar nisto. Tenho de ir fazer um chá de hipericão do Gerês. Ando a beber litros de hipericão do Gerês. Desconfio que estou a ficar agarrado ao hipericão do Gerês. Olha, beijinhos, tenho mesmo de desligar, tenho mesmo de ir, que até já estou com náuseas... Adeus, té’manhã.
— Nem me fales! Isso é um assunto muito longo e agora estou com pressa, que esta noite ainda aqui tenho muito que lhe dar.
— Mas então, o que é que se passa? O carpinteiro desaparecido já deu à costa ou ainda anda a monte?
— Já apareceu. O problema agora não é esse. A questão agora é que combinamos, mas ele está sempre a desmarcar, ora porque choveu, ora porque vai chover, ora porque não confia no último boletim meteorológico. O gajo tem imensos problemas com a meteorologia, tu sabes lá!...
— Mas... não estou a perceber!... O que é que a meteorologia tem a ver com a montagem de uma cozinha, se é tudo trabalho de interior?
— Aí é que está o complicado da história. Ai... ai... Vou então tentar fazer-te um resumo.
[Pausa]
— Uma pessoa pensa que pensa em tudo e nunca pensa em tudo.
— Mau!... Não me digas que vai ser uma história como a da exposição que fizeste para o tribunal e que deu tão mau resultado!...
— Qual delas?!
— Aquela em que tu começavas o texto por “Estava-se num Outono que se advinhava muito chuvoso...”
— Ah, sim, sim. Não era uma exposição, era a contestação ao processo que uma empresa me colocou por eu lhes exigir que me pagassem o que me deviam. E tive de ser eu a fazê-la, porque na véspera descubro que o advogado não tinha feito nada. Pois, essa do Outono... Que depois o juiz perguntava no relambório da matéria de facto: “Estava-se num Outono que se advinhava muito chuvoso?” e eu estava a ver que pra responder tinha de ir arranjar os gráficos pluviométricos desse ano... Ah, pois, essa história... Não. Não, desta vez é mesmo uma reflexão mais inquietante.
— Porra, que tu não consegues mudar um móvel sem angústias existenciais!
— Não é nada disso! Já vais perceber. A questão é com o isolamento térmico.
— Mas então não era só montar a cozinha?!
— Nãão! Já que vou a montar a cozinha cá em baixo e, antes disso, quero fazer o isolamento térmico lá em cima, porque aquilo no sótão é muito quente no verão e muito frio no inverno. E então pensei que devia aproveitar ter agora um mestre de obras para tratar disso. Pralém de que tem mesmo de se começar por aí. Mas o grande problema é que material usar no isolamento. Eu tinha pensado usar lã de rocha mais pladur, mas ele não concorda, quer pôr uma coisa que se chama roofmate, que ele acha que é melhor. E discutimos uma série de vezes por causa disso. Até que eu, de repente, páro para pensar: “Espera lá, por que é que eu estou práqui a insistir tanto na lã de rocha?” E então vou à net e verifico que a lã de rocha é cancerígena! E penso: afinal o homem tem razão! Já agora, deixa cá ver como é isto do roofmate. E descubro que o roofmate é inflamável, caraças!
— Ena, pá!... Ena pá 3000!!...
— Pois é, já estás a ver a coisa, não é? Estás a ver como é que eu fiquei, práli parado uns dias a pensar: “O que é que é pior? Morrer com um cancro ou morrer queimado?” Estás-me a ver, não é? É do caraças, uma pessoa apanhar-se a pensar assim!... Até que decidi: é pouco provável que alguém vá atirar um fósforo aceso para o tecto e que ainda por cima o fósforo se vá infiltrar entre as telhas e a placa. Se bem que, se a Maria Otília ainda aqui vivesse, não era de descartar tal hipótese. Pois se ela furou a parede de um túnel com o automóvel e andou anos a pagar o túnel à Confederação Helvética!... Bom, mas agora, enquanto ela andar entretida não sei por onde com os Palops, não vem práqui lançar chamas pró ar. De maneira, que lá dei razão ao homem e optei pelo roofmate.
— Então já está! Pelo menos essa já decidiste.
— Pois, mas a aplicação do roofmate implica que se levantem telhas. Nem quero pensar no que vai ser com os vizinhos quando eu disser que vou mexer no telhado, ai Jesus!... Bom, mas agora já percebeste porque é que a meteorologia tem implicações na prossecução da coisa, na montagem da cozinha.
— Mas, ó Pedrinho, isso assim é uma chatice! Tu já viste que já começou o Outono, que, por sinal, se advinha muito chuvoso? Então, agora é que tu vais mexer no telhado?!...
— Pois, mas o é que tu queres?... Isto estava programado desde Julho, mas têm-se metido umas coisas nas outras e chegamos a fim de Outubro. Estou feito, estou feito, estou aqui ensarilhado num nó que me enreda cada vez mais!...
— Então, mas por que é que tu não tratas de montar a cozinha e deixas o isolamento prá Primavera? Tens a casa cheia de materiais e uma cozinha sem funcionar: isso assim não dá!
— Porque o carpinteiro não pode vir pôr o parquet, antes do tecto arranjado, porque depois caem coisas, materiais, ferramentas e coisas assim e estragam o soalho, estragam-lhe o trabalho.
— Mas vinha agora montar só mesmo o essencial para a cozinha funcionar e depois faziam o resto, começando do tecto para o chão. Isso não é possível?
— Ser possível é, mas o carpinteiro diz que não está para cá vir duas vezes: uma para montar a cozinha e outra para pôr o parquet. Por causa da maleta.
— Da maleta?!! Que maleta?!!
— Da maleta dele que é muito pesada e ele não está para subir quatro andares, alombando com ela por duas vezes. Diz que tem de trazer as coisas dele, montar o estaminé e fazer os dois trabalhos de seguida. O que é que tu queres?, é assim!... Tu não imaginas o que eu tenho passado com estes gajos! Eu até tenho medo de um dia me atirar a algum deles e lhe torcer o gasganete!... Oh, porra, agora já estou com uma pontada na vesícula só de falar nisto. Tenho de ir fazer um chá de hipericão do Gerês. Ando a beber litros de hipericão do Gerês. Desconfio que estou a ficar agarrado ao hipericão do Gerês. Olha, beijinhos, tenho mesmo de desligar, tenho mesmo de ir, que até já estou com náuseas... Adeus, té’manhã.
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